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quinta-feira, agosto 16, 2012

Fotógrafa registra em livro as aves do Jardim Botânico carioca.


RIO - Dizem por aí que Lena Trindade é uma espécie de Indiana Jones do reino das aves. Ela sorri, acha um pouco de exagero, mas não nega que na tentativa de fotografar pássaros, sua grande paixão, já pisou em cobras venenosas, levou marrada de veado e se atirou em rios para fugir do perigo. É Lena quem assina as fotos do recém-lançado "Aves do Jardim Botânico do Rio de Janeiro", ilustrado com as 152 espécies que habitam uma das mais belas áreas verdes da cidade, guia feito em parceria com o ornitólogo Henrique Rajão e o ambientalista Plínio Senna.

— O que me dá mais prazer na vida é acordar no meio do mato, numa praia... só assim me sinto feliz e energizada — conta Lena, que é casada há três décadas com o compositor e poeta Abel Silva.

Ex-professora, ex-pedagoga, ex-secretária da embaixada da Bulgária, Lena começou a fotografar quando trabalhava no >sav
— Como eles não tinham fotógrafo, todas as vezes que eu ia fazer alguma matéria tinha que contratar frila. E sempre era uma questão: um não podia em tal dia, em tal hora, e assim decidi começar a fotografar — conta.

Formigueiro, o pássaro inquieto

Lena se apaixonou pelas aves quando passou uma temporada na Amazônia com o indigenista Apoena Meireles.

— Andamos quase 20 quilômetros para chegar na tribo dos suruís, em Rondonia. Eu estava muito preocupada porque nunca tinha feito uma caminhada desse porte. Fiquei tão apaixonada por andar pela mata que me deu até um barato. E quando voltei decidi que não pararia mais. Nessa caminhada pela primeira vez na vida eu vi com binóculo uma ave e enlouqueci. Então comprei um binóculo e comecei a me apaixonar.

Nesse afã de viver em comunhão com a natureza, em 1986, Lena entrou para o COA (Clube de Observadores de Aves) e acabou virando diretora de excursão. Numa dessas caminhadas, levou um grupo para conhecer a Ilha de Cabo Frio. E foi lá que um ornitólogo descobriu o Formicivora litoralis, vulgo formigueiro-do-litoral:

— Ele é muito difícil de fotografar, vive numa brenha (emaranhado de galhos) e é tão inquieto que levei o dia inteiro para registrar o primeiro. Só no fim do dia, quando eu estava quase indo embora, ele apareceu. Ele é um pássaro muito enjoado.

Nesse ofício, os perigos são muitos. Certa vez, Lena estava fotografando com um grupo de observadores de aves, na Reserva do Tinguá, e quase pisou numa cobra.

— Eu estava andando sobre as pedras do Rio Tinguá e por pouco não pisei numa jararaca. Para não pisar na venenosa pulei no rio, mas tive o cuidado de salvar também meu equipamento. Depois disso tenho sempre o cuidado de andar no mato usando perneiras, $protegem a perna, até o joelho, de mordida de cobra.

E conta que algumas das aves que vivem no Jardim Botânico foram fotografadas em outras "moradias". Como o gavião-pombo-pequeno, espécie ameaçada de extinção por conta da destruição de seu habitat preferencial: as matas da Baixada.

— É uma ave dificil de ser vista de perto, como todos os gaviões de modo geral. Com este aconteceu algo muito estranho. Eu estava com um amigo quando vimos o gavião. Depois de garantir a foto, fomos tentando nos aproximar e ía$chegando cada vez mais perto. Foi a ave mais dócil que já vi em toda minha carreira de fotógrafa da natureza. Chegamos tão perto que em certo momento ele desceu do galho, veio no chão (talvez comer alguma coisa) e fiz uma foto do meu amigo fotografando o gavião. Um ao lado do outro. Isto nunca mais irá acontecer — conta Lena, entusiasmada, lembrando que haverá exposição do trabalho até 15 de abril no Espaço Tom Jobim. Serão 15 fotos em banners e todas as fotos do livro projetadas o tempo todo, com direito ao som das aves.

Nascida em Cabo Frio, Lena enche a boca para afirmar que seu envolvimento com o Rio de Janeiro é tanto que ela se considera uma autêntica carioca.

— Tenho trabalhos sobre art deco e um projeto sobre restingas (com Dorothy Araújo), que espero saia em breve. Ele terá um foco maior na restinga de Marambaia, uma das mais lindas que já vi. E que vai muito bem, obrigada, graças aos militares, ou ela já teria sido invadida há muito tempo. O Rio é tão exuberante, tão exuberante, que não conseguem ofuscar essa maravilha da natureza. Imagina se fosse bem tratado, se tivéssemos uma Lagoa Rodrigo de Freitas limpa? — diz Lena.

Mas voltemos aos pássaros, esses seres alados, tantas vezes maltratados, eternas musas inspiradoras de poemas, crônicas e canções. Por eles, Lena é capaz de tudo. Até de infringir regras. Uma delas, ela confessa neste perfil.

— Quando eu estava come$çando o trabalho, decobri que a coruja murucututu-de-barriga-amarela dormia num bambuzal, mas nunca conseguia vê-la porque ela só aparecia de noite. Um dia, mesmo sabendo que é proibido, depois que o grupo foi embora, fiquei escondida no Jardim Botânico até escurecer. Esperei, esperei, até que lá pelas tantas ela saiu. Foi emocionante ver aquele ser enorme (44 centímetros), de asas abertas, voando perto de mim. Só fiz a foto dias depois. Fiquei esperando lá no mesmo lugar, e de tanto treinar o olho consegui descobrir onde ela estava.

O marido tem pavor de insetos

Lena explica, também, que para observar pássaros é preciso ter cautela e seguir algumas regras básicas.

— Não usar cores fortes é uma delas. E ter uma lente de 400 milímetros é essencial porque as aves não deixam você chegar muito perto — a maioria não permite que ninguém fique a menos de 30 metros. Também não é aconselhável usar perfumes fortes e, é claro, é preciso respeitar o silêncio, pisar leve e, se possível, estar acompanhada por quem conhece o assunto. Uma foto não se faz só com equipamento, mas com conhecimento dos hábitos das aves. Também é importante chegar bem cedo ao local. As aves são ativas no início da manhã e no final da tarde, quando fazem a última alimentação antes de se recolherem. Mulher para lá dos 60 anos (ela não revela a idade nem sob tortura), Lena, que nasceu em Cabo Frio, é um exemplo de pessoa madura, com disposição e sonhos de sobra. Além do zelo com os filhos — o biólogo Amaro Emiliano e o musicista clássico André — ainda lida com a falta de intimidade do marido com o reino animal.

— Se eu vou com o Abel para o mato ele anda dez metros e diz "tá bom, né?" Ele tem pavor de mosquito, de insetos. O Antonio Pedro (o ator), nosso amigo, costuma dizer: "Lá na casa do Abel, a Lena é o Tarzan e o Abel é a Jane".





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Fonte http://oglobo.globo.com


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